30 Anos de Pós-graduação em Política Científica e Tecnológica

Em dezembro o Programa de Pós-graduação em Política Científica e Tecnológica da Unicamp promoveu o encontro “Memória, Presente e Futuro”, em comemoração ao seu aniversário de 30 anos. O evento contou com a participação de docentes, pesquisadores, alunos e ex-alunos do programa, atraindo um público de cerca de 100 pessoas, que lotou a sala Nova York da Funcamp.

A programação do evento contou com mesas-redondas, palestras e conferências, que abordaram temas como a história, o futuro e desafios do programa, crises na ciência e a interdisciplinaridade na pós-graduação. Durante a mesa de abertura, os presentes destacaram em suas falas o pioneirismo do programa, que foi um dos primeiros dedicados ao estudo de ciência, tecnologia e inovação na América Latina. Ressaltaram ainda o protagonismo que o curso ainda mantém nesse campo de estudos e o seu foco na interdisciplinaridade, que foi uma característica marcante do PPG-PCT desde sua criação.

Em sua fala, o reitor da Unicamp, Marcelo Knobel, também destacou o fato dos alunos e ex-alunos “vestirem a camisa” do programa e terem orgulho de afirmarem que fizeram parte do curso, além do fato do programa atrair alunos de diversos lugares. “Eu, particularmente, tive a felicidade de participar da criação do mestrado em conjunto com o Labjor, e interagir com praticamente todos do programa. Então é uma alegria estar aqui hoje e poder compartilhar e agradecer a todos que participaram do programa e têm participado até hoje e têm pensando no futuro”.

Além do reitor, também fizeram parte da mesa de abertura Flávia Consoni, chefe do Departamento de Política Científica e Tecnológica (DPCT); Emilson Leite, coordenador geral da pós-graduação do Instituto de Geociências (IG), que abriga o DPCT; Sérgio Salles Filho, docente do DPCT e atual diretor do IG; Adelaide Faljoni-Alario, coordenadora adjunta da área multidisciplinar da Capes e Nanci Lopes Garcia, Pró-reitora de Pós-graduação da Unicamp.

 

Mesa de abertura
Mesa de abertura abordou pioneirismo do Programa de Pós-Graduação em PCT

História            

Em palestra sobre a história do PPG-PCT, os professores Marko Monteiro e Maria Beatriz Bonacelli, respectivamente coordenador e ex-coordenadora do programa, abordaram a trajetória do curso, as mudanças ocorridas e os principais desafios para o futuro. A diversidade de temas e de perspectivas, principal característica do programa, foi algo destacado na fala de ambos os docentes.

Bonacelli, que fez parte do DPCT quando ele ainda se constituía em um Núcleo de Política Científica e Tecnológica, na década 1980, e foi aluna da segunda turma do mestrado, conta que desde o início o objetivo foi abordar PCT ao lado de Ciência, Tecnologia e Sociedade, em áreas tão diversas quanto Estudos Sociais da Ciência e Tecnologia, História Econômica da C&T, Economia e Sociologia da Ciência, Indicadores de C&T e, mais recentemente inovação. 

A professora ainda lembra que a visão de lidar com recursos naturais, trazida pelo professor Amílcar Herrera desde a criação do Instituto de Geociências, continua sendo algo tratado no programa, mas com outras abordagens, como mudanças climáticas, carros elétricos e bioeconomia. “Podemos resumir isso em sustentabilidade, que a gente entende como sustentabilidade social, inclusão social, para o desenvolvimento. E essas frentes também vão ganhar mais força nos próximos anos”.

Já o antropólogo Marko Monteiro, que assumiu recentemente a coordenação do PPG-PCT, alega que o trunfo do programa é a possibilidade de tratar pensamentos diversos, em um momento em que lidar com diferenças está cada vez mais difícil. “Uma das coisas mais importantes que a gente faz é pensar o papel da ciência e da tecnologia na sociedade, pois tudo o que fazemos contemporaneamente está permeado por C&T. É uma infinidade de temas e desafios que se colocam e o programa tem muito a contribuir”.

Crises nos cânones da ciência

A antropóloga Hebe Vessuri, primeira coordenadora do PPG-PCT, proferiu a Conferência Magna Crisis que desajustan cânones em la ciencia: ¿provincialización, transnacionalidad, convivialidad?.”, em que ela explora a ideia de que crises em instituições científicas e tecnológicas abrem e fecham portas que criam obstáculos a outras formas de vínculos internacionais.

Em sua explanação, Vessuri utiliza conceitos como o de “Convivialidade”, que ela acredita ser mais adequado que o de “provincialização” da ciência, por sugerir uma possibilidade mais sofisticada de envolver a diferença, evitando preceitos comunitários e grupais para fazer referência a conjuntos sociais mais amplos.

Para auxiliar em suas reflexões, ela comparou dois casos de desmantelamento de atividades científicas ocorrido em dois contextos distintos: o da antiga URSS e o da atual Venezuela, e que geraram o êxodo dos seus cientistas para países como Brasil, México e Argentina. Segundo Vessuri, ambos os casos estudados evidenciam a natureza eminentemente social e política da instituição “ciência”, desmentindo sua suposta autonomia e distância a respeito da realidade social.

“Quando marcham ao exílio no mercado internacional, os cientistas têm que negociar com toda classe de outras práticas culturais para sobreviver, para ter alguma possibilidade de cumprir com suas ambições de organizar-se e continuar / reconstruir suas vidas, suas carreiras profissionais. São negociações que frequentemente se fazem em condições de assimetria, não de igualdade”.

Hebe Vessuri
Hebe Vessuri fala durante Conferência Magna

Interdisciplinaridade

O evento ainda contou com a palestra “Interdisciplinaridade na Pós-Graduação”, proferida por Adelaide Faljoni-Alario, coordenadora adjunta da área multidisciplinar da Capes, e mediada pela docente Maria Conceição da Costa, também ex-coordenadora do PPG-PCT. Adelaide abordou na apresentação a história dessa área na Capes, que foi criada em 1999 por influência de cursos como o do DPCT.

“A área interdisciplinar não é fácil. É uma área de difícil compreensão até para o resto da população acadêmica. Mas é muito interessante entender o papel desses coordenadores que lá na década de 1980 quase fizeram uma insurgência com a Capes, que não tinha uma área de avaliação adequada a seus anseios, e que mesmo assim mandavam propostas”, relata Adelaide.  

Presente e o Futuro

As comemorações dos 30 anos do PPG-PCT também incluíram a mesa-redonda “Pensando o Presente e o Futuro”, que contou com intervenção em vídeos gravados pelos pesquisadores André Furtado, ex-coordenador do Programa; Nicholas Vonortas, da George Washington University e do DPCT; Adrian Smith, Professor da Science Policy Research Unit (SPRU) da Universidade de Sussex, na Inglaterra; e Gabriela Dutrénit (UNAM/México). 

Após a exibição dos vídeos, seu conteúdo foi comentado pelos ex-alunos do Programa Noella Invernizzi (UFPR), Anapatrícia Vilha (UFABC), Rodrigo da Fonseca (FINEP), Sergio Salles Filho (DPCT) e Sérgio Queiroz (DPCT), com mediação dos docentes Marko Monteiro e Janaína Pamplona.

Sergio Salles, atual diretor do IG, levantou a questão da diversidade para lembrar que, apesar de ser uma característica muito importante, é preciso saber administrá-la, sob o risco de gerar fragmentação. Para o diretor, lidar com a diversidade é algo que não acontece espontaneamente e que dá muito trabalho. “E é justamente isso que é a grande oportunidade. Como a gente transforma isso? Nós temos no Instituto um desafio de maior integração e temas para integração não faltam, então esse desafio nosso da diversidade também começa em casa e também tem melhorado”.

Trajetória e Desafios

O evento foi finalizado com a conferência “PPG-PCT: trajetórias e desafios”, proferida pelo professor Renato Dagnino e mediada pelo docente Ruy Quadros, ambos do DPCT. Dagnino abordou em sua fala a trajetória do Programa, desde a “pré-história”, com a chegada do professor Herrera à Unicamp, até a criação do curso, orientado a um olhar latino-americano, além das mudanças ocorridas ao longo dos anos no contexto do Programa.  

Em relação aos desafios do contexto atual, ele defende o incentivo a uma economia solidária, que beneficie pessoas em situação de miséria. “Nós somos 210 milhões de habitantes, 160 milhões em idade de trabalhar e somente 30 milhões com carteira assinada. Nós temos uma capacidade ociosa nesse país, em termos de renda, riqueza e bem-estar, enorme. O que não temos? Tecnologia. Não temos uma tecnociência solidária capaz de fazer com que esses excluídos da economia formal possam ser úteis para eles mesmos, para a sociedade e para o Estado”.

Por Paula Penedo

Foto: Antoninho Perry