Unicamp participa de descoberta inédita no mundo dos dinossauros

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A análise de lâminas delgadas confeccionadas a partir do fragmento de um osso longo de um titanossauro estudado em microscópio permitiu que a docente do Departamento de Geologia e Recursos Naturais do Instituto de Geociências (IG) da Unicamp Fresia Ricardi Branco identificasse a presença de microorganismos fossilizados. A partir daí, uma parceria entre pesquisadores da Unicamp, da Universidade Federal de São Carlos (Ufscar) e da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) foi decisiva para identificar pela primeira vez a presença de parasitas sanguíneos preservados dentro do osso de um dinossauro. A descoberta acaba de ser publicada na revista Cretaceous Research e é uma novidade no mundo dos estudos da Paleontologia, a ciência que estuda os registros da vida do passado da Terra e o seu desenvolvimento ao longo do tempo geológico.

A criação gráfica de Hugo Cafasso mostra caroços esponjosos no osso do titanossauro e a presença de parasitas nos canais vasculares
A criação gráfica de Hugo Cafasso mostra caroços esponjosos no osso do titanossauro e a presença de parasitas nos canais vasculares

Durante seu mestrado, em 2018, no Programa de Pós-Graduação em Geociências/IG, o paleontólogo Tito Aureliano e sua orientadora Fresia Ricardi Branco analisaram um osso de dinossauro de mais de 80 milhões de anos coletado por uma equipe da Ufscar em um afloramento da Formação Adamantina, da Bacia Bauru, no estado de São Paulo. Tito teve a tarefa de investigar um material no qual a paleontóloga Aline Ghilardi, da UFRN, havia identificado no ano anterior caroços esponjosos que se projetavam da superfície óssea.

Fresia identificou inicialmente a presença de um microfóssil dentro dos canais vasculares do osso do dinossauro. “No microscópio, observamos a presença de corpos fusiformes dentro dos canais vasculares que não correspondiam a nenhuma estrutura óssea e que, pelo seu formato constante, poderiam ser mais bem caracterizados com microorganismos fossilizados junto com o osso”, aponta a docente da Unicamp.

Uma vez que a pesquisa da amostra era parte do estudo desenvolvido por Tito em seu mestrado, co-orientado por Marcelo Fernandes, da Ufscar, o então aluno da Unicamp começou a procurar a que grupo de microfósseis poderiam pertencer, por que estavam fossilizadas dentro dos ossos e qual seria a sua influência para o dinossauro. Tito encontrou mais de 10 microorganismos fossilizados e foi assim que convidou a paleoparasitóloga Carolina Nascimento, da Ufscar, para colaborar com a pesquisa. Carolina detectou, então, mais de 70 microrganismos similares preservados dentro do osso do titanossauro e conseguiu determinar que pertenceriam a algum tipo de parasita sanguíneo.

Foi a primeira vez que se identificou organismos como esses preservados dentro de ossos de dinossauros – antes disso, parasitas fósseis haviam sido identificados apenas associados a insetos preservados em âmbares ou em coprólitos (fezes fossilizadas). Também foi possível apontar na pesquisa, através de uma tomografia realizada na USP, que o dinossauro sofria de osteomielite aguda.

A docente do IG Fresia Ricardi Branco, que identificou inicialmente a presença de microfóssil nos canais vasculares do osso do dinossauro
A docente do IG Fresia Ricardi Branco, que identificou inicialmente a presença de microfóssil nos canais vasculares do osso do dinossauro

De acordo com Fresia, lâminas delgadas de ossos são corriqueiramente analisadas em estudos de paleohistologia, ramo da Paleontologia que estuda a estrutura microscópica de ossos fósseis, e fossildiagênese, que estuda modificações físico-químicas acontecidas durante a fossilização dos restos orgânicos. “A partir do estudo das lâminas petrográficas de diferentes porções dos ossos é possível conhecer a idade do indivíduo, remodelações e demais estruturas ósseas, bem como as lesões que essas estruturas sofreram em vida ou durante a fossilização, além do próprio processo de fossilização que permitiu a sua preservação”, afirma.

A análise geoquímica realizada no Instituto de Geociências da Unicamp indicou a fossilização excepcional desses organismos por um processo chamado de fosfatização, que teria ocorrido de forma rápida, permitindo a preservação dos corpos dos microorganismos dentro dos canais vasculares do hospedeiro, antes que degradassem. Um novo estudo deverá descrever os parasitas e identificar a que grupo pertencem, além refinar a sua caracterização geoquímica utilizando técnicas de imageamento.

No vídeo, Tito Aureliano e Aline Ghilardi, da UFRN, explicam em detalhes como foi identificada a osteomielite aguda e os parasitas sanguíneos. 

 

Por Eliane Fonseca Daré

Imagens: Hugo Cafasso

Foto: Arquivo pessoal

Ediçao de imagem: Renan Garcia

Publicado originalmente no Jornal da Unicamp.